sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


Muita coisa há que eu odeio.
E eu, quando odeio, odeio com verdade proporcional à quando amo – e, com verdade, muita coisa há que eu odeio.
Eu odeio a juventude imbecil, sem idéias, nem ideais, sem romance, nem poesia: o gargalhante exército de cretinos, sem luta, sem causa, sem nada. Mas odeio ainda mais os não-jovens – e um pouco mais ainda os não-imbecis! –, tentando mimetizar-se entre eles, por medo do isolamento – ou, pior: em busca dele.
Odeio o substrato de refugo de lixo, servido à guisa de “cultura”, nos bandejões clandestinos dos camelôs de toda esquina – à preço de banana, para cérebros de banana.
Odeio o mau gosto travestido de “tendência”.
Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer a verdadeira companhia(frase que é perfeita, mas não é minha: é de Nietzsche, o que me lembra que eu também odeio quem faz uso de idéias alheias sem lhes conferir os devidos créditos).
Odeio sentir saudade.
Odeio quem não se dá, não se entrega e não se envolve, quem não veste camisas, quem não passa da beirada da piscina – quem joga, vive e ama na retranca, sempre esperando pelo movimento do outro.
Odeio covardia sob o rótulo de “insegurança”.
Odeio quem não defende seus afetos, quem não protege seus amores, quem não honra suas palavras e não assume seus atos, quem não socorre, quem não abriga.
Odeio os canalhas – e quem é amigo de canalhas.Odeio violência, agressão, estupidez; falta de cordialidade e de polidez.
Odeio a vaidade exacerbada.
Odeio a falta de generosidade. Odeio a soberba.
Odeio quem maltrata porteiros, garçons, manobristas e balconistas.
Odeio quem explora os mais fracos – sejam mais fracos fisicamente, culturalmente, financeiramente: os ditos “mais fortes” serão sempre perversos. Odeio doutrinas.
Odeio o sectarismo arrogante dos que julgam-se pertencentes à uma “casta” superior qualquer: na política, na religião, na filosofia – seja no que for.
Odeio todas as formas de separatismo e de intolerância.
Odeio qualquer forma de intervencionismo estatal sob a bandeira da disciplinação da sociedade. Odeio os corruptores e, ainda mais, os corruptíveis. Odeio quem coloca preço na dignidade – na própria e na alheia – e, quanto mais alto o preço estipulado, mais isso será odioso.
Odeio o egoísmo míope, o individualismo vil, quem pede e recebe, mas recusa-se a pagar o preço – por menor que seja.
Odeio quem evita enfrentamentos, quem teme as rupturas, quem se acovarda, se acomoda, cede e se amesquinha – se o prêmio for satisfatório.
Odeio os chantagistas – mas mais ainda os chantageáveis.
Odeio a pilantragem consentida, o mau-caratismo justificado, a maldade relevada, a cafajestagem conivente – e conveniente.
Mas não há nada, absolutamente nada, neste mundo e neste plano de vida que eu odeie mais do que a suprema crueldade de quem abandona um velho cão nas ruas, à própria sorte.
No olhar de um cão abandonado, entre expressões misturadas de sede, fome, frio, dor, medo e tristeza, há mais – infinitamente mais! – verdade do que todas as humanas palavras (incluindo as minhas) podem traduzir.
E todos os meus outros ódios ficam então reduzidos a quase nada.

http://ocolecionadordehistorias.blogspot.com/2008/10/os-olhos-de-um-co.html

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Ele

Já começa a beijar o meu pescoço
com sua boca meio gelada meio doce,
já começa a abrir-me seus braços
como se meu namorado fosse,
já começa a beijar a minha mão,
a morder-me devagar os dedos,
já começa a afugentar-me os medos
e dar cetim de pijama aos meus segredos.
Todo ano é assim:vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,
vem ele disposto a quebrar meus galhos
e a varrer minhas folhas secas.
Já começa a soprar minha nuca
com sua temperatura de macho,
já começa a acender meu facho
e dar frescor às minhas clareiras.
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,
seu discurso sedutor de renovação,
suas palavras coloridas,e eu estou na sua mão.
Todo ano é assim:mancomunado com o vento, seu moleque de recados,
esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,
levanta-me a saia, beija meus pés,
lábios frios e língua quente,
calça minhas meias delicadamente
e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!
É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,
meu jogo e minhas varetas.
Parece Deus, posto que está no céu, na terra,
nas inúmeras paisagens,
na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,
dentro e fora dos meus vestidos,
na minha cama, nos meus sentidos.
Todo ano é assim:
já começa a me amar esse atrevido,
meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,
meu preferido.

4 de maio de 2003 (Elisa Lucinda)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Diálogo comum 
O que é felicidade? Ou melhor, o que ela significa? Bom, se consultarmos o Aurélio teremos as seguintes definições: Qualidade ou estado de feliz; contentamento. Ajudou? Não? Ah, então tem mais. A felicidade pode ser associada à bom êxito, sucesso.
Talvez você esteja perguntando o porquê desse tema. Ontem, 11/02/2010, estava conversando com um amigo sobre a tal felicidade. E isso me fez pensar: O que nos traz contentamento? O que nos completa? Por que a buscamos com tanta vivicidade?
Eu e você poderíamos seguir a definição do "pai dos burros", conforme é popularmente conhecido. Mas tem um único detalhe: Ele não nos dá receitas, regras e, justamente por isso vivemos à sua procura.
Ah, não sei se a vida seria tão cheia de graça, de alegria e frustrações se esta nos fosse "dada" de uma maneira tão fácil. Então, chegamos à conclusão que ela não nasce conosco, é uma conquista diária.
Agora o clímax da conversa: O que nos deixa realmente feliz? Ou se achar mais agradável um outro termo, pode ser...realizada. Isso, o que nos realiza? Neste diálogo citamos algumas: realização acadêmica, um bom trabalho, amigos, família e por que não um amor? Me refiro ao amor romântico. Será que posso me realizar com um único elemento desta pequena "lista"? Não posso responder, mas percebo claramente que um é complemento do outro. Entretanto, quando conquistamos apenas um ficamos felizes, mas logo em seguida estamos em busca de mais. Por que essa necessidade? Porque sinto que falta algo. Esse algo é a grande motivação do meu ser.
Viu como nosso pequeno diálogo comum rendeu? Talvez fosse o momento da tensão, do disfarce de bem-estar, da minha fraqueza diante do que me estremece. Esse tal estremecimento, ou melhor: estremecimentos, talvez, seja o próximo tema. Mas no final valeu a pena, não valeu? Você chorou no filme.

Tati Ribeiro